Adoramos quando um amigo ou parente nos consegue aquela indicação de emprego providencial, mas quando algo ocorre na política é inadmissível.
Adoramos quando o policial é compreensivo, ou até mesmo corruptível, frente aos nossos irrisórios delitos cotidianos, mas quando o mesmo recebe propina de traficantes é obsceno e detestável.
Adoramos desculpas para faltar ao trabalho, greves e feriados emendados. Porém, quando é para nós o serviço a ser prestado, é incompreensível o adiamento.
Adoramos e aplaudimos a caça aos bandidos, tratados com a maior violência possível, como demonstrado no episódio do ônibus 174 ou recentemente no filme "Tropa de Elite", mas quando "efeitos colaterais" vitimam civis torna-se injustificável.
Admiramos a beleza, a criatividade e pureza das crianças, mas quando sub-nutridas, ignorantes, abusadas e armadas, todos detestam saber como e por quê.
Adoramos saber fofocas, mas quando é a nossa vida na roda, é condenável.
Adoramos reconhecer nossa boçalidade e tendência ao ridículo, interpretadas em palco, mas, fora do teatro, são poucos os egos a admitir.
Adoramos a idéia de persuadir uns e outros, mas detestamos ser vítimas da indução.
Adoramos dizer que a culpa é "deles", mas detestamos reconhecer e assimilar que é "nossa" responsabilidade.
Adoramos realizar antes inimagináveis feitos em conjunto, mas detestamos dividir os ganhos.
Adoramos pensar que o legal é ter coragem, sacrificar-se pelo justo, mas somente quando isso não inclui riscos à nossa sagrada e magnífica noção de individualidade.
Adoramos a idéia de democracia, mesmo que seja só mais uma fachada para manter nosso atemporal regime de hipocrisia.
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